por Bel Sousa
Estamos em contagem regressiva para a estreia de Instantâneo, dia 18 de novembro. Nesse espetáculo nos inspiramos livremente na obra Tropicália de Hélio Oiticica para falar da festa popular mais importante de nosso país, o carnaval. Nosso recorte, naturalmente, é o carnaval de Salvador, já que vivemos e trabalhamos nesta cidade. Mas vamos por partes: por que Hélio e Carnaval? A Tropicália entra aonde mesmo?
Hélio Oiticica foi considerado um dos artistas mais importantes e revolucionários de nosso país. Na década de 1960 ele criou obras que serviram como pedras fundamentais para o processo de criação de Instantâneo, os Parangolés e o penetrável Tropicália. Em ambos a interferência direta do espectador é fundamental para que a obra cumpra sua função estética. Conforme nos mostram citações do próprio Hélio e estudos realizados sobre sua obra, seu envolvimento com o samba e os desfiles de carnaval foram decisivos no desenvolvimento de sua arte.
“Quero fazer voltar o Parangolé ao gênio anônimo coletivo de onde surgiu, e com isso jogar fora os probleminhas de estética que ainda assolam nossa vanguarda em sua maioria, transformando a pequenez desses problemas em algo maior (…) nas Escolas de Samba ninguém sabe quem fez isso ou aquilo; o importante é o todo onde cada um dá tudo o que tem. Minha experiência como passista da Mangueira é fundamental para que eu me lembre disso: cada qual cria seu samba com improviso, segundo seu modo e não seguindo modelos; o que o fazem seguindo modelos não sabem o que seja o samba ou sambar.” ( Oiticica apud Gomes:2008, 14)
Na obra Tropicália, Oiticica criou um labirinto multisensorial, com arquitetura inspirada nos morros cariocas. O espectador pisava, descalço, em todo tipo de materiais: areia, brita, água, etc. Tudo isso permeado por araras e plantas tropicais:
“Tropicália é a primeiríssima tentativa consciente, objetiva, de impor uma imagem obviamente brasileira ao contexto atual da vanguarda e das manifestações em geral da arte nacional. Tudo começou com a formulação do Parangolé, em 1964, com toda a minha experiência com o samba, com a descoberta dos morros, da arquitetura orgânica das favelas cariocas (e conseqüentemente outras, como as palafitas do Amazonas) e principalmente das construções espontâneas, anônimas nos grandes centros urbanos – a arte das ruas, das coisas inacabadas, dos terrenos baldios, etc.” (Oiticica apud Almandrade:2007,01)
Em Instantãneo, nos apropriamos principalmente dessa vontade de Hélio Oiticica de falar de fragmentos da realidade brasileira com todos os contrastes que se oferecem aos nossos sentidos diariamente. Esses contrastes são os fios que tecem essa realidade. Identificamos na organização de Tropicália, o brincar próprio do carnaval de Salvador: os corpos vão criando espaços em movimento, e tecendo relações permeadas por um caos multisensorial, que revela um tipo de organização muito específica da festa. Ao mesmo tempo, o carnaval de Salvador regurgita a segregação e a assume como matéria-prima: cordas, tapumes e camarotes limitam o espaço e tem como consequência a emergência de corporeidades próprias de tal realidade. Essas corporeidades foram a nossa maior investigação no processo do espetáculo e bom… o resto só assistindo!
A bailarina Fernanda Hurbath, de Instantâneo, fotografada por Marina Alfaya
Instantâneo – Estreia 18 de novembro na Galeria do Livro, no Espaço Unibanco Glauber Rocha, Praça Castro Alves, Salvador – BA.
