Por Bel Sousa
Estrutra de Mercado Livre: o espectador compra (pagando com qualquer coisa) um minuto de dança. Ele escolhe o performer que vai dançar (eu ou o Beto), o figurino que será usado e a música.
A apresentação de ontem (25/04) foi muito especial. Algumas das reflexões que venho fazendo ao escrever a dissertação puderam ser comprovadas.
Primeiro a necessidade de renunciar ao controle em obras interativas. Claro que um certo controle é sim necessário, mas para que a interação com o público aconteça é preciso estimulá-lo a interagir, sem no entanto oferecer um pacotinho pronto. E a interação nem sempre é do jeito que esperamos. Várias vezes, enquanto eu circulava pelo público, mesmo sabendo que eu estava em cena, as pessoas me paravam pra dizer o que pensavam do trabalho, dar sugestões ou bater-papo mesmo.
Fizemos um ajuste desde a última apresentação. Saímos com um megafone (e depois passamos a usar um microfone) anunciando nosso “produto”, feito camelôs mesmo. Isso marcou o início da performance de uma maneira mais incisiva. Uma das sugestões que nos foram dadas, de já iniciar com alguns pedidos “prontos”, me fez refletir sobre o que realmente queremos. Nosso objetivo não é chegar com o pedido pronto. Mesmo que no início as pessoas se sintam tímidas de chegar à frente do palco, a idéia é estimular o público a sair de sua zona de conforto e interagir com a gente. Existe um primeiro momento de estranhamento, mas depois que o primeiro espectador compra uma dança a performance flui. Acredito que um dos pressupostos para haver interação é renunciar ao controle total sobre a obra, por isso que venha o estranhamento inicial, pois ele estimula o espectador a se relocar na relação artista/obra/público.
Um outro ponto é a questão do público como agente de configuração. Mesmo com todo o controle que tentamos obter, antecipando os possíveis pedidos nos ensaios, as surpresas (muito bem-vindas por sinal) aconteceram tanto na estréia quanto na apresentação de ontem. E essas surpresas também nos levam a um deslocamento na relação com o público e a dança. O espectador se torna co-autor da dança que compra, à medida em que nos propõe novas formas de relação entre o corpo, o figurino e a música. Ainda não tive uma só combinação totalmente antecipada dos três elementos. Tenho sido forçada a recombinar o repertório de propósitos que criamos nos ensaios, e esta perda momentânea de controle só tem enriquecido a performance, pois é nela que estabelecemos a troca: temos que nos reorganizar em um novo sistema, de nova complexidade, a partir da informação introduzida pelo espectador.
A melhor surpresa da noite de ontem foi sem dúvida a participação de pessoas da platéia dançando. Tivemos dois grupos de “consumidores” que ao invés de escolherem um de nós para dançar, preferiram eles mesmos vestirem os figurinos e dançarem as músicas escolhidas. Uma redefinição total de papéis, que pelo menos nesse momento de euforia inicial me fez ficar mais confiante em relação às minhas hipóteses sobre arte, interação e interatividade (algumas destas hipóteses eu não vou postar aqui por que ainda estou buscando os autores certos para embasá-las).
Finalmente, uma última reflexão é de como a relação mais estreita que Beto e eu estabelecemos nos últimos anos com as novas mídias, em especial com a Internet foi fundamental para que chegássemos à configuração atual de Mercado Livre. Nós nos aproximamos ( o que não significa transpor ou traduzir) de alguns princípios das novas mídias na performance: automação, quando estabelecemos regras que norteiam a relação, variabilidade, quando possibilitamos que a obra esteja permanentemente aberta com a flexibilização das regras que a automatizam, modularidade, quando definimos nos ensaios módulos de propósitos corporais que norteiam a improvisação, e que acessamos e recombiamos a partir da interação com o espectador. A modularidade nos coloca frente ao problema da interface: em Mercado Livre, uma performance que aparentemente nada tem a ver com tecnologias digitais, a música e o figurino funcionam como interfaces que mediam a interação do público com os artistas e nos proporcionam o estímulo tanto para a criação como para a seleção dos propósitos a serem apresentados.
Para saber mais sobre algumas das “cabecices” que escrevi aqui: ver teóricos da cibercultura (recomento N. Katherine Hayles e Lúcia Santaella), Lev Manovich ( que fala dos princípios que falei aqui, tem link para o site dele na seção links deste blog) e Ivani Santana ( também tem link para o Grupo de Pesquisa Poéticas tecnológicas na Dança, que ela coordena na seção links.) Ver também os trablhos O Corpo é a Mídia da Dança? e Outras Partes do Lakka ( temos o link também, no site dele você encontra os vídeos)
A tempo: Sabemos que nada do que propomos é novo, só tentamos propor e principalmente, trazer para nossas criações um novo olhar.
Para quem ainda não viu, vamos apresentar Mercado Livre na próxima quarta, 29 de abril no foyer do TCA.